Os shananawás ou shanenawás

O nome Shanenawá, etimologicamente, é composto pelo termo shane (espécie exótica de pássaro, de cor azul cintilante com aproximadamente 30 centímtros de altura) e pelo sufixo nawá (povo). Os denominados “povo pássaro” constituem juntamente com os kampas, kulinas e kaxinawás a população indígena que habita a região do rio Envira – que corta o estado do Acre no município de Feijó, localizado a cerca de 700 quilômetros ao norte da capital Rio Branco.

Atualmente, o povo shanenawá subdivide-se em quatro comunidades localizadas no Acre: Aldeia Morada Nova (2 km próximo da cidade de Feijó); Cardoso, localizada em um igarapé de mesmo nome (a 20 km ao norte de Feijó); Nova Vida (a cerca de 10 km ao sul da cidade), e a aldeia Paredão (a mais distante de Feijó, a 30 km ou aproximadamente 45 a 60 minutos, descendo o rio Envira). Sobre sua origem os shanenawás dizem ser descendentes de um povo que no início do século habitava a região do rio Gregório.

Os shanenawás sofreram consequências das invasões que ficaram conhecidas como o período das “correrias”, iniciado em 1913 com a chegada dos nordestinos em busca da seringa. Nesse período, o governo federal brasileiro promoveu um modelo de ocupação territorial do Acre, incentivando a migração de pessoas, a maioria vinda da região Nordeste, para a Floresta Amazônica, na busca do látex das serigueiras. Para os povos originários o período se caracterizou pela falta de um lugar que lhes garantisse segurança em seu habitat tradicional. Assim, nos primeiros contatos com os não índios, as populações indígenas, eram obrigadas a trabalhar na coleta de borracha. Porém, ao término dos serviços, os índios eram expulsos da área que habitavam. As consequências disso levava essas nações  a passarem fome e adoecerem, levando grande parte dos expulsos de seu território à morte.

Nessa época, por não terem espaço garantido para sua sobrevivência, os shanenawás, passaram a reivindicar às autoridades locais e federais um território que pudesse assumir como deles, já que haviam sido retirados de sua região original. Esse espaço foi “concedido” aos shanenawás por volta de 1926, por meio de uma “doação” feita por um seringueiro da região.

O primeiro shanenawá a chegar ao novo habitat foi Inácio Brandão, conforme relatam hoje os representantes desse grupo. Segundo estimativa dos próprios indígenas, atualmente o núcleo familiar Brandão é constituído por mais ou menos 310 pessoas, entre adultos e crianças, espalhadas de modo heterogêneo pelas quatro aldeias ao longo do rio Envira. As habitações dos shanenawás são semelhantes às das outras etnias da região: as casas são do tipo palafitas, feitas de paxiúba e cobertas com folhas de coqueiro (jacir). O espaço divide-se em áreas  abertas que funcionam como sala de visitas e cozinha. As áreas fechadas são os locais reservados para dormir.

Esse povo subdivide-se em clãs: waninawa (povo da pupunha), varinawa (povo do sol), kamanawa (povo da onça), satanawa (povo da ariranha) e maninawa (povo do céu). Os filhos são membros do clã da mãe e como regra, em geral, só podem casar com indivíduos pertencentes ao mesmo clã. Mas isso, às vezes, não acontece, já que há alguns matrimônios interétnicos de índios com não-índios.  Segundo o cacique Busã, as famílias são monogâmicas, embora sejam permitido que os caciques da etnia possam ter até três esposas dentro de casa, podendo ter filhos com todas. Não é uma regra a ser seguida, mas uma possibilidade ao “chefe”. O índio que opta por ter duas ou três mulheres tem a obrigação de observar a igualdade nas relações. Isso o obriga a se deitar com todas as mulheres na mesma noite, caso mantivesse relações sexuais com alguma. Pela manhã, ele tinha que levantar cedo para caçar e sustentar a família. O cacique Busã, consciente dessa responsabilidade afirma que ter mais mulheres é sinônimo de mais famílias, mais responsabilidade. Por esse motivo ele afirma que não pretende deixar a monogamia.

Os shanenawás possuem uma organização centralizada na figura do chefe, no caso o cacique, cujo cargo é hereditário. À liderança cabe o dever de se dedicar inteiramente aos interesses da comunidade representando-a em contatos com autoridades públicas dos não-índios. O chefe tem poder de decisão, embora atualmente as decisões mais importantes sejam tomadas de forma coletiva em reuniões com outros importantes membros do povo.

A organização política do povo shanenawá considera o cacique a autoridade máxima, cabendo a ele resolver problemas internos e servir como representante do grupo em intermediações com a sociedade geral brasileira como, por exemplo, em reuniões da Organização dos Povos Indígenas do Rio Envira (Opire), em que se discutem problemas referentes à saúde, educação e comercialização de seus produtos.

O meio de vida econômico desse povo é de subsistência, centrando-se em coleta, pesca e caça. A primeira se restringe a materiais essenciais, como a paxiúba e a palha, usadas nas construções das casas. Os shanenawás igualmente coletam envira e tabocas para a confecção de cestos e artesanatos, tais como arcos e flechas, que eventualmente comercializam. A caça, por sua vez, está praticamente extinta. Já a pesca, eles exercem no formato de sua cultura. Pescam no período de águas a nível baixo do rio Envira e igarapés Diabinho e Cardoso, que desembocam próximos às comunidades.

No processo de desenvolvimento da economia da borracha, os índios foram alocados como mão-de-obra para o fornecimento de carne de caça e outros produtos da alimentação. Posteriormente foram integrados à lida do seringal e à própria extração da borracha. Além destas atividades, os shanenawás também participaram do “amansamento” dos índios “brabos” – como eram chamados os índios não contatados, que não querem ter convívio com não índios – da região do alto rio Envira.

Os modos de vida desse povo passaram por uma reestruturação: a moradia foi transferida mais para o interior da floresta, onde há seringueiras. Houve uma maior fartura de caça, mas por outro lado, deixaram de lado o acesso à grande quantidade de peixes dos rios e as duas colheitas agrícolas que faziam durante o ano. O declínio das atividades extrativistas abriu espaço para as atividades pecuárias na região, o que aumentou consideravelmente os conflitos pela posse de terra.

Os shanenawás vivem na margem do rio Envira. Antigamente moravam em cupinxauas (espécie de taba, habitação construída de palha), na qual moravam todos os membros de um clã. Hoje vivem em moradias sobre as águas, palafitas feitas de madeira serrada e cobertas com palha de envira ou de alumínio. Plantam roças próximas à aldeia com macaxeira, banana, milho e amendoim. Também plantam em escala menor batata-doce, abóbora, inhame, cará, cana-de-açúcar, mamão e melancia. Coletam manga, caju, ingá, e açaí com muita abundância, todos frutos originários da região. Compram alguns produtos em Feijó, principalmente carne, na época das cheias do rio Envira e seus Igarapés (quando não se pode pescar para garantir a reprodução dos peixes), e criam pequenos animais.

No artesanato típico deste povo, os homens fabricam arco e flecha e as mulheres fazem colares, chapéus, saias, pulseiras e cestos. Também fabricam vasos cerâmicos. A Associação Shananawá da Aldeia Morada Nova (ASAMN) facilita a venda destes produtos na cidade de Feijó.

Xamanismo, cosmologia e rituais

Os shanenawás creem nos espíritos bons e maus da floresta, chamados jusin. O principal jusin tsaka tem a forma de um animal monstro, que anda à noite, destruindo e queimando todas as coisas que encontra em seu caminho. Assim como outras etnias que utilizam a ayahuaska da Amazônia, os shanenawás também consagram os seus ritos com a bebida da floresta, que utilizam para se comunicar com os ancestrais, em busca de ter visões que ajudem na resolução de seus problemas. Em sua língua, chamam a ayahuaska de umi. Esse povo conta com a presença do pajé e contam com um vasto jardim de plantas medicinais na Aldeia Paredão. Aplicam no braço também o veneno do sapo verde phyllomedusa bicolor, o kambo, como planta medicinal e espiritual.

Curiosamente, essa etnia adota aspectos e parte da cultura católica. Praticam rituais que são mais brincadeiras, especialmente na estação seca com mariri que é uma dança, o pau-de-sebo, o tiro de arco e flecha como competição entre as seu povo.

Os hunikuins e suas regiões na Amazônia

Os hunikuins são um povo da língua pano, com uma população estimada em 7.900 índios, que habitam a Floresta Amazônica de ambos as lados da fronteira entre a leste peruano e o noroeste brasileiro, no estado do Acre. Atualmente são o grupo indígena mais numeroso da floresta, representando 43% da população (excetuando os chamados “índios isolados”). As aldeias hunikuins do Peru são localizadas nas margens dos rios Purus e Curanja, enquanto as aldeias do lado brasileiro são espalhadas ao longo de vários rios importantes e seus afluentes (Tarauca, Jordão, Breu, Murú, Envira, Humaitá e Purus). Os hunikuins vivem da caça e pesca, além de plantarem e colherem exatamente o que consomem. Assim, nesta cultura típica não há nenhuma comercialização dos produtos voltados a sua alimentação. A troca ou venda ocorre, porém, com os produtos culturais, não voltados à subsistência, como os artesanatos –  especialmente tecidos com desenho, redes, peças de argila, pulseiras, cordões e outros adorno de miçangas confeccionados pelas mulheres das tribos. Os traços e desenhos dos artesanatos hunikuin possuem características próprias, fortes e marcantes.

The hunikuin are a people of the pano language, with a estimated population of 7,900 indigenous, inhabiting the Amazonic Forest in both sides of the border between east of Peru and northwest of Brazil, in the state of Acre. Currently they are the most numerous indigenous  group of the forest, representing 43% of the population (excepting the so called “isolated indians”). The hunikuin villages in Peru are located at the margin of Purus and Curanja rivers, while the brazilian side villages are spread over many important rivers and their afluents (Tarauca, Jordão, Breu, Murú, Envira, Humaitá e Purus). The hunikuin live from the hunting and fishing, also planting and harvesting exactly what they consume. In this sense, in this tipical culture there is none commercialization of products from their food. The exchange or selling occurs, however, with the cultural products, which are not aimed at the subsistance, like handicraft, specially painted fabrics, nets, clay pieces, bracelets, necklaces and other beads adornments made by the village women. The hunikuin craftwork traces and designs have it’s own powerful and marking characteristics.

Segundo registros, os hunikuins brasileiros habitavam inicialmente a área do Alto Juruá e depois passaram a viver no entorno dos rios Muru, Humaitá e concentraram-se principalmente no Iboiçu – todos afluentes do rio Envira, que por sua vez, é um afluente do Juruá. Assim, acredita-se que esse seja o habitat original dos hunikuins.

According to records, the brazilian hunikuin initially inhabitated the High Juruá area and afterwards started to live around the Muru, Humaitá and specially the Iboiçu rivers, where they then concetrated. These rivers are afluents of Envira river which is, in its turn, a Juruá afluent. So, it’s believed that this is the original habitat of the hunikuin.

Com a colonização brasileira, muitos anos depois que esses povos originários viviam na região amazônica, chegaram os seringueiros. Os exploradores da borracha impuseram  transformações na ecologia do território, introduzindo as armas de fogo e levando a etnia a se distribuir pelo Brasil. Do ponto de vista de quem está no Acre rumando para o Peru, os hunikuins ocupam a margem direita, ficando a margem esquerda ocupada pelos Kulinas. No século XVIII, os colonizadores organizaram excursões à procura de escravos na região, mas não há registro de que as etnias tenham sido escravizadas. Acredita-se, porém, que nos primeiros contatos dos não índios, os hunikuins tenham tido numerosas baixas, por conta do contágio de doenças trazidas pelos colonizadores. De qualquer maneira, é fato conhecido por historiadores que esse tipo de expedições dirigidas à captura de mão de obra escrava fez com que muitos índios tenham sido escravizados e maltratados.

With the brazilian collonization, many years after the original folk lived in the amazon regiion, then came the seringueiros (rubber tappers). The rubber explorers imposed transformations in the territory ecology, introducing fire weapons and leading the etny to distribute themselves throughout the Brazil. In the perspective of someone who is in Acre going to Peru, the hunikuin occupied the right side of the way, while the left side was ocupied by the Kulina. In the 18th century, the colonizers organized excursions to find slaves in the region, but there’s no records that these ethnicities have been enslaved. It’s believed, however, that in the first contacts with non-indigenous, the hunikuin have had numerous casualities because of contagious deseases brought by the colonizers. Anyway, it’s a known fact by historians that this kind of expedition directed to the capture of slave labor force leaded to the subdual and mistreatment of many indians. 

No final do século XIX, por volta de 1890, inicia-se uma onda de invasões de caucheiros peruanos (caucheiros são profissionais que extraem látex de uma árvore popularmente conhecida como caucho, da família da seringueira). Eles vinham em busca dos cauchos, mas diferentemente da seringueira, a árvore precisa ser arrancada para se extrair o látex. Portanto, os peruanos cortavam inúmeras árvores, o que levou à degradação e esgotamento da região onde habitavam os hanukuins. A exploração caucheira durou cerca de 20 anos e causou grande destruição. Quando chegaram os seringueiros brasileiros, que extraiam a borracha da Hevea brasiliensis por meio de cortes e sulcos feitos no corpo da árvore, sem a necessidade de derrubada do exemplar. Eles permaneceram por um período longo de tempo, apesar dos altos e baixos do mercado de borracha no início do século XX.

By the end of the 19th century, around 1890, it starts a wave of invasions of Peruvian cauceros (caucheiros or cauceros are professionals that extracts latex from a tree popular known as caucho, from the rubber tree [seringueira] family). They came searching for caucho, but unlike the rubber tree, this tree must be ripped out to extract the latex. Therefore, the peruvians cutted countless trees, leading to a degradation and depletion of the region where the hunikuin lived.  The caucero exploration lasted for 20 years and made a great destruction. Only then came the brazilian serigueiros, that extracts rubber from the Hevea brasiliensis by making cuts and grooves in the tree trunk, without the necessity to chop it down. They remained in the area for a long period of time, despite the high and low of the rubber market in the beginning of the 20th century.

A presença dos caucheiros foi muito violenta na região porque derrubar uma árvore é inadmissível para os povos indígenas. Nesse violento contato entre caucheiros e grupos indígenas, esses tiveram novamente grandes perdas, causadas pelos confrontos e doenças trazidas por aqueles peruanos.

The cauceros presence was very violent in the region becausetaking down a tree is inadmissible for the indigenous people. In this violent contact between cauceros and indigenous groups, these had again great losses caused by confrontation and deaseases brought by that peruvians.

Esses foram apenas os primeiros reveses desse povo originário. Por volta de 1910, o governo brasileiro começa a propor a ocupação do estado do Acre, promovendo uma campanha focada na atração dos moradores do Nordeste do país para a região do Norte, sob a promissora prosperidade do Ciclo da Borracha, cujo auge ocorreu em 1912. O povo nordestino viu a proposta como uma oportunidade de fugir das secas constantes de sua região e começou a migrar para o Norte.

These are only the first setbacks of the original people. Around the year of 1910, the brazilian government begins  to porpose the occupation of Acre state, promoting a campaign focused in the atraction of Northeast population of the coutry to the North region, under the promising prosperity of the Rubber Cicle, with its peak at 1912. The northeast people saw the proposal as an opportunity to escape the constant dryness of their region e started to migrate North.

O estado do Amazonas, em especial as regiões ribeirinhas, começou a receber esses migrantes. Em 1913, com a ocupação do Acre chegaram os primeiros grupos de nordestinos, a maioria formada por cearenses. Até então, a Floresta Amazônica da porção acreana se mantinha quase intacta. Com a chegada de mais de 100 mil nordestinos na região do Juruá (40 mil) e Purus (60 mil) trazidos pelo programa de integração do Acre com o estado brasileiro, começou a expulsar os caucheiros peruanos, um dos objetivos do governo federal. Porém, toda essa movimentação não ocorreu de forma pacífica. Os mateiros que estavam na região, não tinham somente a função de abrir trilhas e passagens para a seringa, mas eram contratados para limpar a área dos “índios brabos”.

The state of Amazonas, specially the riverside regions, started to receive those migrants. In 1913, with the occupation of Acre, there came the first northeastern groups, they’re majority composed by Ceará people. Untill then, the Acre portion of the Rain Forest was almost intact. With the arrival of more than 100 thousand northeasterns around the Juruá (40,000) and Purus (60,000) rivers as part of the program of the acrean integration with Brazil’s State, the expulsion of peruvian cauceros also took place, what was one of the federal gorvernment objectives. However, all this movimentation did not occur in a pacific way. The mateiros (bushmen) did not only have the function to open trails and passages to the rubber sites, but they were also contracted to clear the area of “mad indians”.

A reação  dos índios hunikuin na ocasião, já muito fragilizados após o contato om os caucheiros, não foi de confronto, mas de isolamento. Ao longo dos anos, diversos hunikuins tomaram a decisão de fazer contato mais próximo com os não índios, apesar dessa decisão ter sido – e ainda ser – muito questionada pelas lideranças indígenas da etnia. Hoje, eles estão distribuídos em 12 pontos da Amazônia brasileira, tendo uma população estimada em 7.900 hunikuins no território brasileiro e 2.550 do lado peruano.

The hunikuin reaction in the ocasion, already much fragilized from the previous shocks, was not of confrontation, but of isolation. Along the years, many hunikuin have taken the decision to make closer contact with the non-indigenous, altought the decision have been – and still is – much questioned by the indiginous leadership of the ethnicity. Today, they are distributed in 12 sites of the brazilian Amazon, with an estimated population of 7,900 hunikuin on this side, and 2,550 in the peruvian territory.

Curiosidades

Algumas histórias dessa etnia relatam a perspectiva dos hunikuin sobre o contato dos não-índios. Em 1952 uma expedição de biólogos e antropólogos alemães chegou no lado peruano quase fronteira com o Brasil, numa cidade da floresta chamada Curanja, para estudar as plantas nativas e fazer possíveis contatos com os índios. Os livros dessa expedição estão hoje no Museu das Expedições, na Alemanha, e neles se encontram as narrativas dos visitantes. Segundo esses relatos, os alemães encontraram oito aldeias de hunikuins, onde habitavam cerca de 120 pessoas.

Some stories of this ethnicity relate the hunikuin perspective about the contact with the non-indigenous. In 1952, a expedition of german biologists and anthropologists arrived the peruvian side, almost in the frontier with Brazil, in a forest ciry called Curanja to study native plants and do possible contacts with the indians. The books of this expedition are, today, in the Expedition Museum, in Germanny, and in them we find the narratives of the visitors. According to those reports, the germans have found  eight hunikuin villages, where lived about 120 people.

Alguns dias após a chegada, o grupo começou as filmagens de registros dos contatos físicos mais próximos entre os índios e os alemães, deixando o povo da terra intrigado com aquelas máquinas fotográficas, tripés e outros equipamentos. Em consequência àquela visita, uma onda de sarampo instalou-se entre a população indígena das aldeias, e culminou na morte de 80% dos adultos. Os hunikuins consideraram aquelas máquinas estranha e as filmagens as causas da tragédia.

A few days after arriving, the group began to film and register closer phisical contact between indigenous and german, letting the people of the land puzzled with those photographic machines,  tripods and other equipments. In consequence of that visit,  
a wave of measles was installed in the villages population, culminating in the death of 80%  of the adult. The hunikuin considered those strage machines and the filming as causes of the tragedy.

Em sua compreensão, aquela imagem reduzida das pessoas filmadas, que aparece por dentro da lente, também reduziam os seus “yuxin yuda” – uma espécie de anjo da guarda – e, com isso, os índios morriam. Os hunikuins, sob forma de vingança, aniquilaram quase todos os pesquisadores. Os que conseguiram fugir desse trágico encontro voltaram para a cidade de Curanja, enquanto os índios sobreviventes ao surto fugiram para o lado brasileiro, em busca de abrigo com seus parentes, já instalados às margens rio Envira e do Jordão.

In their understanding, that reduced image of filmed people, which appears inside the lens, also reduced their “yuxin yuda” – a kind of guardian angel – and, with that, the indigenous would die.  The hunikuin, as a form of vengeance, annihilated almost all the researchers. Those who were able to flee from this tragic encounter headed back to the Curanja city, while the surviving indigenous people escaped to the brazilian side, looking for shelter with their relatives, already installed at the margins of Envira and Jordão river.

Hoje, os hunikuins buscam o resgate de suas tradições, investindo na escrita de sua história e, assim, perpetuando a sua cultura para gerações futuras.

Presently, the Hunikuin aim for rescuing their traditions, investing in the writing of their history and, so, perpetuating their culture for future generations.

Xamanismo

Os Hunikuin atualmente realizam um papel importante no xamanismo brasileiro e mundial. Ao mesmo tempo que permanecem um povo que valoriza suas raízes, principalmente com relação aos seus saberes e práticas espirituais e medicinais, sua cultura também promove grande dinamismo no contato com o resto do mundo. Os pajés (xamãs), txanas (cantores), artesãs e artesões hunikuin viajam o Brasil e outros países no propósito de união, promovendo a expansão da consciência humana enquanto guardiões das medicinas da floresta. Sua missão de união junta com sensibilidade índios e não-índios, fortalecendo todos na intenção de estabelecer harmonia entre os seres humanos e a mãe natureza.

The Hunikuin presently play a important part in the brazilian and global shamanism. At the same time that they remain a people that values their own roots, above all regarding their spitirual and medicinal knowledge and practices, their culture also promotes a great dynamic contact with the rest of the world. Hunikuin pajés (shamans), txanas  (singers), women and men artisans travel Brazil and other countries in the porpose of union, promoting the expansion of human consciousness as guardians of the forest medicines. Their mission of union joins with tenderness indigenous and non-indigenous, strengthening all in the intention of establishing harmony between human beings and mother nature.

O uso da ayahuasca é considerado privilégio do xamã em muitos grupos amazônicos. É uma consagração çancestral e coletiva entre os hunikuins, praticada por todos os homens adultos e adolescentes que desejam ver “o mundo do cipó”. O mukaya seria aquele que não precisa de nenhuma substância, nenhuma ajuda exterior, para se comunicar com o lado invisível da realidade. Mas todos os homens adultos são um pouco xamãs na medida em que aprendem a controlar suas visões e interações com o mundo dos yuxin yuda.

Ayahuasca use is considered a privilegde of the shaman in many amazonian groups. It’s a ancestral and collective consagration between hunikuin, practiced by all adult and young men that wish to see the “vine world”. The mukaya would be the one who doesn’t need any substance nor external help to communicate with the invisible side of reality. However, all grown up men are part shaman as they learn to control their visions and interactions with the world of the yuxin yuda.

Dois fatos facilmente observáveis que apontam nessa direção, é o uso freqüente da ayhauasca aproximadamente duas, três, quatro ou mais vezes por mês, e as longas caminhadas solitárias de alguns velhos, sem o objetivo de caçar, mas sim de procurar ervas medicinais que possam ser úteis em seus ritos de cura ou de pajelança. Essas duas atividades mostram uma procura ativa de estabelecer um contato intenso com a yuxindade. Yuxindade é uma categoria que sintetiza bem a cosmovisão xamânica dos hunikuins, com uma visão que considera o espiritual (yuxin) como algo sobrenatural e sobre-humano, localizado além da natureza e do humano. O yuxin é o espiritual ou a força vital permeia todo o fenômeno vivo na terra, nas águas e nos céus.

Two facts easily seen that point in this direction is the frequent use of ayahuasca approximatelytwo, three, four or more times in a month, and the long and lonely walks of some elder, not with the objective to hunt, but to find medicinal herbs that can be useful in their healing or shamaninc rites. These two activities show a active demand in establishing a intense contact with the yuxinity. Yuxinity is a category that fairly synthesizes the shamanic hunikuin cosmovision, as a vision that considers the spitirual (yuxin) as something supernatural and super-human, located beyond nature and human. The yuxin is the spiritual or life force that permeates all living phenomenon in earth, waters and heavens.

A atividade do xamã que procura conhecer e relacionar-se com os yuxins é indispensável para o bem-estar da comunidade. A causa última de todo mal-estar, doença ou crise tem suas raízes neste lado yuxin da realidade, em que o xamã, como mediador entre os dois mundos (espiritual e material), é necessário. Os lugares com maior concentração de yuxin são os barrancos (onde moram os mawam yuxibu), o lago e as árvores.

The activities of the shaman that is looking for knowing and relating oneself with the yuxin is indispensable to the community well-being. The ultimate cause of every malaise, desease or risis has its roots in the yuxin side of reality, where the shaman, as a mediator between the two worlds (spiritual and material), is necessary. The places with greatest yuxin concentration are the ravines (where the mawam yuxibu  live), the lakes and the trees.

A cidade de Jordão

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a pequena cidade de Jordão tem uma população estimada de 7.858 habitantes (2017), e está localizada num local que anteriormente era denominado Seringal Duas Nações, de propriedade de Levi Saveda, e que pertencia ao município de Tarauacá. Em 1956 passou a ser denominada Vila Jordão. Em 29 de março de 1992, seu povo se reuniu e resolveu transformar a Vila Jordão em município. Houve um plebiscito que por maioria absoluta de votos pedia a elevação à categoria de município de Jordão.

According to the Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE), the small town of Jordão haz a estimated population of 7,858 habitants (2017), and it’s located in a place that was previously called as Seringal Duas Nações (Two Nations Rubber Forest), property of Levi Saveda and part of Tarauacá county. In 1956, it started to be called as Vila Jordão (Jordão Village). In March 29, 1992, its people gathered and decided to transform the Jordão Village in a town. There was a plebiscite in which the majority of votes asked for the elevation to the category of Jordão to a town.

Hoje, a principal fonte de renda da cidade, é o extrativismo do látex. Os nascidos nesta cidade, chamam-se Jordãoenses, e o município se estende por 5.357,3 Km2. Contava em seu último censo (2010), a população era de 6.577 habitantes por toda esta extensão do território, sendo a sua grande maioria formado por índios. Situado a 326 metros de altitude, de Jordão tem as seguintes coordenadas geográficas: Latitude: 9° 26′ 4” Sul, Longitude: 71° 53′ 4” Oeste. Extrativista Alto Juruá, e a Reserva Extrativista do Alto Tarauacá.

Those who are born here are called jordãoenses, and the county extension is of 5,357.3 Km². In the last census (2010) the population was of 6,577 habitants in the territory, its majority formed by indigenous people. There we find the High Juruá Extrativist and the High Taraucá Extrativist Reserv. Sited 326 meters above sea level, these are Jordão geographical coordinates :  9° 26′ 4” South; 71° 53′ 4” West.

O Município conta com 37 instituições escolares e 1.347 alunos devidamente matriculados, uma creche municipal, e um posto de saúde municipal, com médico e auxiliares de enfermagem.

The town has 37 school institutions and 1,347 registered students, a municipal nursery and a municipal Health center, with physicians and nursing assistants.

A extração do látex, é a principal fonte de renda de seu povo, junto com a agricultura. A prefeitura mantém frentes de trabalho para manter o povo com pequenos rendimentos para subsistência de suas famílias. As vias de acesso são aéreas e fluvias, sendo que na época das cheias dos rios o trajeto de Tarauacá a Jordão chega a seis dias de navegação.

Latex extraction is the main source of income of its people, followed by agriculture. The town hall keeps work fronts to mantain the people with minimal yield to the subsistance of the families. The access ways are through the air and the rivers, and in the flood season the traveling time from Taraucá to Jordão is about 6 days by water.

A cidade de Jordão é banhada pelo rio com o mesmo nome, e no território habitam 32 Aldeias de índios, todas hunikuins.

Jordão city is bathed by the river with the same name and in the territory live 32 indigenous villages, all Hunikuin.

 

Nota: Mapa desenhado pelo movimento Survival

A Survival é o movimento global pelos direitos dos povos indígenas. Ela dedica-se à causa e defesa desses povos, proteger suas terras e auxiliá-los a determinar seus próprios futuros. Eles focam seu trabalho na Floresta Amazônica, que é hoje a única região na face da terra onde sabe-se que há de fato população indígena com pouco ou sem nenhum contato com o “mundo modernizado”. A cidade de Jordão, está localizado exatamente no coração da área de pouco contato, como mostra o mapa desenhado pelo Survival. A região verde escura é onde se concentra população de índios Isolados da Amazônia. Veja abaixo:

The Survival is a global movement for the indigenous people rights. It’s dedicated to the cause and defense of these people lives, protecting their lands and aiding them to establish their own future, as the institution declares in it’s website. They focus their work on the Amazon rainforest,, that is, today, the only region on Earth where it’s known that there are indigenous with none or little contact with the “modern world”. The city of Jordão is located exacly in the hearth of this low-contact area, as the map of Survival shows. The dark green part is where these isolated amazonian folk are concetrated. See bellow:

 

 

A ayahuasca

A ayahuasca, uma bebida sagrada para diversos povos antigos da floresta, vem ganhando um destaque no mundo todo, despertando a curiosidade crescente de pessoas na busca do autoconhecimento. Seu uso é feito em consagrações que buscam a expansão da consciência individual e coletiva. Com esse propósito de elevação espiritual, os rituais que oferecem a bebida abrem-se para a união entre todos as culturas e pessoas. Nessas consagrações, os povos indígenas também oferecem suas canções, suas orações, suas cores e suas curas na forma de medicinas da floresta. A ayahuasca junta-se ao tabaco do rapé tradicional e do cachimbo, à sananga, ao kambo e a outros elementos da mata, trazendo seus guardiões – instrutores ancestrais de aspectos fundamentais do nosso mundo. Seu uso espiritual permite um direcionamento construtivo na ingestão dos princípios ativos das plantas, algo que não pode ser descuidado nem irresponsável. De fato, se tomados com sabedoria, a ayahuasca e as medicinas da floresta podem ajudar no tratamento contra o abuso de drogas e hábitos autodestrutivos.

Ayahuasca, a sacred drink for many ancient folk of the forest, has been winning importance in the whole world, awaking the rising curiosity of people in the quest of self-knowledge. It’s used in consagrations that aim for individual and collective conscience. With this propose of spiritual elevation, the rituals that offer the drink open themselves for the union between all culture and people. In these consagrations, the indigenous people also offer their chants, their prayer, their colors and their cures as forest medicines. Ayahuasca joins the traditional rapé (snuff) and pipe tobacco, sananga, kambo and other jungle elements, bringing their guardians – ancestral instructors of fundamental aspects of our world. It’s spiritual use allows a constructive directioning in the ingestion of the plants active principles, something that can’t be careless nor irresponsible. In fact, if taken wisely, ayahuasca and the forest medicines can help in the treatment against drug abuse and self-destructive habits.

Conhecida como um “chá”, trata-se de uma bebida tradicional das folhas de chacrona (Psychotria viridis) e o cipó jagube. A chacrona contém DMT (dimetiltriptamina), uma substância presente em todos os mamíferos e diversas plantas, enquanto o jagube carrega i-MAO, o inibidor da enzima MAO (Monoamina oxidase), responsável por degradar as moléculas de DMT no corpo. A ayahuasca resulta de horas de decocção das folhas e do cipó, feita com muito respeito por todos os grupos que realizam um trabalho espiritual sério.

Known as a “tea”, it’s a traditional drink from the chacrona (Psychotria viridis) leaves and the jabuge (Banisteriopsis caapi) vine. Chacrona has DMT (Dimethyltryptamine), a substance present in all mammals and many plants, while jagube carries i-MAO, the inibitor of MAO enzime (monoamine oxidase), responsible for degrading DMT molecules in the body. Ayahuasca is the result of hours of decoccing the leaves and the vine, a process done with much respect for all groups that have a serious spiritual work.

Uma vez no corpo, o DMT permite ao ser humano abrir sua visão a diferentes perspectivas de consciência. Alinhando-se coletivamente por meio de canções e conexões com os pajés, txanas (cantores e cantoras), guias e guardiões, podemos ter acesso à consciência expandida da qual fazemos parte com a natureza. Essa conexão pode ser entendida como uma forma de transcendência. A floresta abre suas cores e sua sabedoria quando, com calma e entrega, criamos clareza de nossa essência mais pura e inteligente.

Once in the body, DMT allows the human being to open up vision to different conscience perspectives. Collective aligning through chants and connexions with the shamans (pajés), txanas (singers), guides and guardians, we can have access to expanded conscience from which we are a part with nature. This connection can be understood as formed of transcendence. The forest shows its colors and wisdom when, with calm and surrender, we create clarity from our purest and most intelligent essence.

As medicinas da floresta espalharam-se e inspiraram milhões de adeptos pelo mundo inteiro, cocriando um amplo estudo sobre a consciência da unidade espiritual, cultural e natural. Essa integração é uma vontade íntima de todo ser. É o estado de unidade que permite verdadeiros milagres e transformações na saúde humana, seja individual ou coletiva.

The forest medicines have been spread and inspired millions of adepts throughout the world, cocreating a wide study about the conscience of spiritual, cultural and natural unity. This integration is an intimate will of every being. It’s the state of unity that allows true miracles and transformations in human health, whether individual or collective.

Muitas pessoas encontram, por meio da ayahuasca, insights e ferramentas que auxiliam na construção da coerência interna. São possíveis revelações que se destacam e aparecem com claridade à mente, para além das mirações que o espírito da Rainha acompanha e introduz no aprendizado. A Rainha é o espírito mestre da ayahuasca, chamada por muitos outros nomes nas tradições indígenas e conhecida por todos que reverenciam as medicinas da floresta. É compartilhado um ambiente espiritual seguro no qual os indivíduos possam trabalhar superações pessoais e habilidades inatas, enquanto aprendem sobre compaixão por si mesmo e por todos os seres. O contato com a natureza fortalece os sentidos e sentimentos, transcendendo o intelecto e trazendo a cura que passa a ser uma realidade de cada um.

Many people encounter, with ayahuasca, insights and tools that aid in the construction of the intern coherence. It is possible to have highlighted revelations that show up with clarity to the peaceful mind. It goes along and beyond the “mirações” that the Rainha introduced in the learning. The Rainha (Queen) is the master spirit of ayahuasca, called by many other names in the indigenous traditions and known by all those who reverence the forest medicines. It’s shared a safe spiritual environment in which the individuals can work personal overcomings and innate abilities, while they learn about compassion for yourself and all beings. The contact with nature enhances the senses and sentiments, transcending intellect and bringing the cure that becomes a reality to each one.

A proximidade com tradições ancestrais cria a possibilidade de um contato profundo com um conhecimento disponível a toda humanidade sobre coexistência e corresponsabilidade. A floresta e todos os seus habitantes – humanos e não-humanos – é um coletivo que faz parte da Terra. Faz parte de todos os indivíduos. Compartilhamos um mundo de saberes e horizontes, paisagens harmoniosas, reencontros de jornadas. A ayahuasca é um ponto de luz e união nessa rede; um ponto de conversão que hoje traz o potencial de unir os mais diversos curandeiros, médicos e estudiosos de Gaia. Embarcar nesse estudo é um passo no nosso reencontro com um xamã antigo… uma pele com a qual todos, em alguma existência , caminhamos.

The proximity with ancestral traditions creates the possibility of a profound contact with a knowledge available to all humanity about coexistence and co-responsibility. The forest and all its inhabitants – humans and non-human – are a entourage that’s part of Earth. It’s part of everyone. We share a world of wisdom and horizons, harmonious landscapes, journey reencounters. Ayahuasca is a point of light and union in this network; a conversion point that today carries the potential of uniting many kinds of healers, physicians and students of Gaia. Boarding on this study is a step in our reencounter with an ancient shaman… a skin with which everyone of us, in some existence, have walked.

A medicina da floresta – a copaíba

Óleo de Copaíba – suas propriedades e utilização:
Em uma rápida pesquisa sobre o óleo de copaíba na internet aparece uma série de informações interessantes. Copaíba é uma árvore nativa na região Amazônica, com flores brancas e frutos com vagens contendo uma semente. Sua madeira vermelha é utilizada na marcenaria.

Estudos e pesquisas realizadas com o óleo da copaíba são insuficientes para afirmar que suas propriedades beneficiam o sistema do corpo humano, entretanto, o seu uso é cultural pelos nativos da Floresta Amazônica como uma medicina desintoxicante para o corpo.

Tornou-se um produto importante para o mercado local na Amazônia sendo utilizado, além das medicinas caseiras, em cosméticos e tintas.

Há registros de que a copaíba já era utilizada no Brasil antes da colonização portuguesa, quando os povos originários brasileiros, os índios, perceberam que os animais se esfregavam ao tronco da copaibeira quando tinham algum ferimento. Então, o índio notou que a árvore tinha propriedades medicinais e passou a experimentá-la em seus próprios corpos, confirmando seus efeitos.

A princípio era utilizada para tratar doenças de pele e picadas de insetos. Depois, foram sendo descobertas outras aplicações, principalmente na cicatrização de de ferimentos diversos.

Além das indicação dos pajés como um anti-inflamatório poderoso, estudos acadêmicos apresentam diversas propriedades do óleo de copaíba – sendo utilizado para tratar bronquite, doenças de pele, úlceras e sífilis, bem como para curar feridas.

Do ponto de vista farmacológico, destaca-se o beta-cariofileno, um anti-inflamatório que atua sobre a mucosa gástrica, aliviando azias, curando úlceras e gastrite. Seu poder anti-inflamatório é grande. Quando comparada ao diclofenaco de sódio, que é um medicamento utilizado com eficiência para esse fim, e seu efeito foi duas vezes mais eficiente. Na prática, com uma dose menor, a equivalência terapêutica foi a mesma.

Além de muito útil nas inflamações e infecções, devido à sua ação cicatrizante, a copaíba também tem ação expectorante e antimicrobiana, indicada para diversas doenças e incômodos, como feridas, furúnculos, eczemas, urticárias, seborreias, afecções de garganta, gripe, tosse, disenteria, corrimentos ginecológicos, incontinência urinária.

Fontes:
http://www.minhavida.com.br/alimentacao/tudo-sobre/20317-oleo-de-copaiba
http://www.oleodecopaiba.com.br/
https://www.remedio-caseiro.com/saiba-para-que-serve-o-oleo-de-copaiba/

O pajé, que índio ele é?

“Quando o pajé canta, ele conecta a comunidade com os espíritos e seres da floresta. Isso traz harmonia e força. Promove equilíbrio e saúde. ”

O pajé, é uma figura de extrema importância dentro das tribos indígenas do Amazonas. Apesar de uma boa parte da cultura indígena ter sucumbido à chegada do “colonizador”, a presença deste personagem quase que principal de uma aldeia, ainda permanece, e com toda a sua sabedoria.

O declínio do saber em alguns grupos indígenas amazônicos é resgatado pelos núcleos espiritualistas onde a ayahuasca, o rapé, a sananga, o kambô e outras medicinas são usados. E dentro dessas medicinas citadas, sem dúvida, a ayahuasca (bebida sagrada que tem vários nomes diferentes a depender da etnia indígena) é a mais misteriosa das alquimias utilizada pelo xamã.

Dentro da aldeia, o xamã é um personagem social que possui por conta da regionalidade da floresta amazônica, variações no nome, na participação social na aldeia, podendo chegar até a quase ser o líder do grupo, mas isso não é o comum. Na natureza da hierarquia de uma aldeia, ele é o líder espiritual e não tem como função trabalhar na lavoura ou no roçado. Ele é o detentor de um conhecimento astral, também transmitido via oral ou expresso por imagens. Essa figura emblemática reúne em si as funções de médico, sacerdote, conselheiro psicológico e auxilia como juiz o cacique. Quando o cacique precisa se ausentar, é pajé que assume suas funções de líder máximo de um povo. Seu comportamento é transcultural, e tem experiências universais, que vão além de sua cultura, isso quando em estado alterado de consciência.

“A ciência espiritual e médica dos pajés é um conhecimento construído e acumulado durante 4 mil anos. Começou 2 mil anos antes de Jesus nascer. Merece respeito. Merece o direito de continuar existindo. Só alguém muito demoníaco pode afirmar que a sabedoria dos pajés é obra do Diabo e ou querer não dar valor a ela.”

Um índio exerce a função do pajé ou xamã não pela imposição, mas como quase tudo que transcorre entre o povo indígena da Amazônia, esta função é por reconhecimento de seus iguais. Só seu povo pode dar a condição a um pajé de ter essa posição social. Por fim, o povo da aldeia, passa o considera-lo desta forma. É uma condição de pura vocação. Bem diferente da nossa sociedade, onde um médico torna-se médico por sua vontade de exercer tal função, o xamã não obtém o poder de escolha, o povo naturalmente assim o considera. E pronto. Ele também tem um grande papel de manter a aldeia unida em busca de sua identidade psicossocial viva.

O conhecimento que o xamã tem de medicina da floresta, compõe-se do profundo conhecimento que tem da tribo, dos aspectos da vida social do grupo e do ecossistema onde vive. Para ele, a saúde orgânica é um aspecto de algo muito mais vasto. O ato de curar, é uma guerra vitoriosa, na concepção xamãnica.

Nem todas as aldeias possuem pajés. É comum quando um índio adoece, no caso da não existência imediata de um pajé, convoca-se o pajé de uma aldeia vizinha – que vai de bom coração, com suas rezas e ervas, para a cura.

Para algumas etnias, como os tukanos, que vivem no Estado do Amazonas, na região fronteiriça do Brasil com a Colômbia, chamam este líder espiritual de “cumu” que representa, “o ponto máximo espiritual dos sábios”. Assim como em outras aldeias, “o cumu não é um chefe, mas sim um sacerdote”. O Cumu é um líder espiritual que conhece profundamente a sua história e faz com que essa história se traduza em força e fé entre os seus. Os “cumus” para os tukanos, têm uma posição transferível de pai para filho ou filha, dado que é natural ter mulheres “cumus”, e, neste caso, em geral, se especializam em causas femininas, como a arte de parteira, doenças de mulheres e crianças. Ela, pode também liderar um rito de cura ou pajelança, caso não tenha-se a presença de um “cumu” homem.

“O pajé é um guerreiro espiritual. Ele enfrenta espíritos malignos enviados pelos inimigos. Com cantos e flautas, ele chama os espíritos protetores do seu povo para a batalha espiritual. Se falhar, crianças, mulheres e homens da sua tribo podem adoecer e morrer.”

Em minha vivência no Acre, conheci na região do Rio Envira, sábios pajés espirituais e da medicina. Na ocasião, eles contaram histórias lindas e incríveis. Em nossa expedição ao Jordão, encontraremos antigos líderes espirituais hunikuins, talvez os mais tradicionais pajés desta etnia, onde será possível, vivenciar toda espiritualidade e cura dos xamãs. Na aldeia Boa Vista, temos o pajé Inkamuru, reconhecido por seu trabalho de cura, e na aldeia Chico Curumim, contamos com o pajé Siã Hunikuin, outro grande líder espiritual, igualmente reconhecido pelo seu trabalho. Ambos pajés são pesquisadores e profundos conhecedores da medicina da floresta. Neste escrito, não posso deixar de homenagear o pajé “Una Isi Kayawa”, também do Jordão, autor do belíssimo livro disponível nas livrarias “Uma Isis Kayawa – Livro da Cura do Povo Hunikui do Rio Jordão”, que deixou uma herança para toda humanidade.


Assista o vídeo:



Pajé Inka Muru da Aldeia Boa Vista – alto Jordão


Pajé Siã Hunikuin da Aldeia Chico Curumim – alto Jordão

“Quando o pajé dorme, os espíritos da floresta falam com ele. Avisam sobre perigos e informam coisas que precisam ser feitas para a saúde de toda aldeia.
Ou seja, até quando dorme, o pajé trabalha.”

Mãe Samaúma: espírito de proteção da floresta

Por Pardal Luiz
A samaúma é uma árvore milenar da região da Floresta Amazônica. Com uma altura entre 80 a 90 metros, essa espécie chega a ter um diâmetro de 5 a 8 metros. Para se ter ideia do tamanho do seu “corpo”, na sua fase adulta é necessário uma roda de mais 25 pessoas adultas para abraçar essa majestosa árvore.

Samaúma de médio porte, localizado na aldeia do Caucho. Foto tirada em março de 2017 durante uma expedição.

Em março de 2017 estive na aldeia do Caucho, no alto rio Murú (Acre), com mais 23 pessoas entre índios e não índios e juntos não conseguimos abraçar a majestosa samaúma. Apesar de seu tamanho imponente, a madeira da samaúma é macia, o que demonstra a sua fragilidade frente à potência das motosserras dos madeireiros.

Durante minha expedição encontrei algumas samaúmas. Nas terras dos shanenawás, no baixo rio Envira, em Feijó, encontrei cinco lindas árvores desta espécie, algumas delas em fase jovem, mas que, segundo o povo da floresta, tinham não mais que 40 anos. Pude ver ainda exemplares muito antigos, já bem altas, e uma gigante, que de acordo com um índio, deveria ter mais de 500 anos. Naquela hora pensei, então, que quando o português Pedro Álvares Cabral chegou à Bahia, essa árvore já existia. Minha reflexão foi além e não pude deixar de questionar o fato dos não índios insistirem em cortar, derrubar e matar uma árvore dessa magnitude. Grandiosa, ela pode levar entre 200 e 300 anos para atingir sua fase adulta. Mas, mesmo não sendo considerada uma maneira nobre, é um alvo constante dos madeireiros pela sua maciez, e por ser de fácil corte e manuseio. É cobiçada para confecção de compensados

As samaúmas são lindas, soberbas e misteriosas. Não se tem conhecimento, na Amazônia, de um espaço no qual haja concentração desta espécie, porque a sua reprodução é complexa e depende de diversos fatores naturais. Por exemplo, as samaúmas são muito delicadas e o seu florescimento é irregular, podendo demorar até cinco anos para florescer. Quando este evento ocorre a samaúma produz uma grande quantidade de flores brancas, que duram apenas uma noite.

Já o processo de fecundação ocorre com a ajuda do mundo animal. São morcegos que em bandos deslocam-se entre as samaúmas e ao colherem o néctar, sujam seus pelos com o pólen, que se espalham quando pousam em outra árvore da mesma espécie, fecundando assim as flores. Abelhas selvagens ou mansas, besouros e algumas aves também participam ativamente na fecundação desta árvore. Sem a ajuda desses animais e insetos, seria muito difícil a fecundação devido à grande distância entre as árvores.

A “mãe” samaúma é venerada por todas as tribos indígenas da Amazônia. Esse apelido é dado pelo fato de que ao esbanjar altura, a samaúma enxerga toda a floresta por cima, sendo por esse motivo considerada a mãe da floresta. Esses povos contam lindas histórias sobre a manifestação de seus espíritos nas noites de lua cheia. Além disso, o povo da floresta, afirma que a árvore tem propriedades medicinais. Sua importância é vital para a floresta amazônica e o meio ambiente.  Sua copa grandiosa abriga um pequeno ecossistema. Por conta de sua grande altura, as raízes das samaúmas são profundas e esse fato colabora para a irrigação dos lençóis freáticos mais profundos até a superfície favorecendo o processo da geração de umidade, isto é, evaporação e geração de chuvas. É importante ressaltar que a samaúma irriga as folhas não apenas em seu longo e espesso tronco, como também fornece ao ambiente a condição de irrigar parte da umidade das profundezas do solo até 100 acima da superfície, dividindo a água que conduz com outras espécies.

Bela, majestosa, útil à natureza é considerada sagrada para todas as etnias dos índios da Amazônia e celebrada pelos não índios que estudam e se interessam por ecologia. Um grupo de estudantes da Universidade Federal do Acre a chama de “uma escada para o céu” em um material produzido no âmbito do projeto Cine Ecologia, ministrado pelo professor doutor Fernando Schmidt, do curso de engenharia florestal. Assista ao vídeo e conheça um pouco mais sobre essa árvore mágica.

A atriz e apresentadora de TV brasileira Regina Casé foi à bacia Amazônica e fez uma reportagem sobre a importância da Samaúma, o GPS da floresta. Assista ao vídeo:

A lenda da garota que vive na árvore

As tribos da Amazônia acreditam que a samaúma tem na sua base (sacupema) uma grande porta invisível aos olhos humanos, usada ​​para se comunicar com mundos existentes. Essa porta, contam os índios, seria uma passagem entre o universo humano e o universo espiritual amazônico. Por essa porta entram e saem seres mitológicos da “selva mãe”. Um desses mitos é a existência de uma bela garota que vive na árvore – o verdadeiro espírito essencial da samaúma, o de uma grande curandeira e protetora dos animais e plantas da floresta.

Batani: índia artesã hunikuin do Jordão

“Tradução: Meu nome é Batani HuniKuin, tenho 24 anos, sou um ìndia hunikuin, moro na aldeia Boa Vista aqui no Jordão – Acre, e quero contar um pouco do trabalho com diversos artesanatos como: Tecelagem, fazendo tecidos e como eles, faço bolsas de vários tamanhos, toalhas, roupas em geral pequenas, e com vários tipos, tamanhos e desenhos. Todos os pontos que dou em meu trabalho, foram ensinados pela minha avó a muitos anos atrás. É cultural da minha família. Minha mãe também fazia, e eu quando aprendi, era muito pequena, e trabalhava com a minha mãe. Os desenhos também são da cultura hunikuin do jordão, e são muito bonitos.

Cerâmica, também vem da cultura da minha nação fazer trabalhos com cerâmica. Em geral são pequenos vasos de barro que servem para por alimentos, frutas e outros como vaso de água. Algumas mulheres “brancas’’ gostam de coloca plantas, mas aqui não precisamos disso, porque plantamos tudo no chão.

Miçanga, são aquelas pequenas pedrinhas eu juntas dão u colorido bastante bonito, e com desenhos relevantes. Mais do que isso, acredito que faço verdadeiras joias indígenas e com total exclusividade, porque uma peça, nunca sai igual a outra peça. Poucas pessoas conseguem ter porque não conhecem o trabalho das Índias artesãs daqui do Jordão. Colares, pulseiras, brincos, gravatas e outros lindos adornos, eu faço com minhas mãos e meu coração. Sempre que as faço, rezo para que as pessoas que usem, tenham muito amor no coração.

Palha, faço esteiras, redes e dormir, mochilas (com cipó), cesto e outros produtos que nós mesmo aqui na Aldeia usamos.

Madeira pequenas, ripas, cascas de árvore e galhos que estão no chão, eu aproveito para fazer alguns trabalhos de artesanatos. Não danificamos em nada a Floresta, mas tentamos trabalhar com que ela nos dá, e com todo respeito, amor e gratidão a Natureza.

Todos os trabalhos que fazemos aqui, tem como princípio, respeito e gratidão a Natureza.

Cultura indígena dos kaxinawás

Os kaxinawás têm uma cultura rica e vasta. São um povo feliz, sem dúvida, apesar de todo o contexto de ameaças constantes de perda de seu território para não índios – que provavelmente desmatarão a floresta. Sempre tocam e cantam quando estão experimentando e trabalhando na feitura da sua valiosa medicina da floresta. Quando estão em seu culto religioso (que costuma ter a duração de uma noite completa, do sol poente até os primeiros raios de sol do dia seguinte) comungam com seu chá sagrado, a ayahuasca. Nesses rituais eles bailam e cantam com o intuito de emanar vibração positiva para os deuses, para o aniversariante, para o doente ou simplesmente para todo o mundo. Têm o hábito cultural de desejar o bem para todos, cultuando a paz, a harmonia no coração, a compaixão e, principalmente a gratidão.

Luiz Pardal, idealizador da expedição Povo da Floresta, conta que quando esteve na aldeia do Caucho, em março de 2017, comemorou com muita vibração de amor, felicidade e gratidão o aniversário de um amigo. Os integrantes da expedição chegaram por volta das 2h30 a Tarauacá, subindo o rio Murú nos pequenos barcos dos índios.

“Encontramos essa maravilhosa e simpática aldeia, composta de um povo simples, amoroso e muito feliz. O motivo da comemoração, era o aniversário do nosso txai do rio Murú, o Txuã Hua Bake, que completava 20 anos naquele dia”, conta Pardal, que foi convidado a participar da festa com pajelança (série de rituais realizados pelo pajé indígena em certas ocasiões com um objetivo específico de cura ou magia), mas não pode compartilhar dos momentos na aldeia.

“Não pude ficar para ver toda a festa, mas vi muitos convidados txais índios. O evento contaria com a presença de alguns líderes de outras aldeias, como Tuin Hua Hunikuin, querido txai da aldeia Tamandaré (a uma hora de barco da aldeia Caucho).”

Ao falar da vontade de ficar para ver as celebrações, o aniversariante Txuã tornou-se correspondente do Povo da Floresta, e fez uma série de fotos dos irmãos de etnia compartilhando aqueles momentos e os ensinamentos que os hunikuins do rio Murú levaram à ocasião.

Abaixo, é possível ver algumas imagens desses momentos, que podem um dia serem vivenciados em uma nova expedição à floresta Amazônica. A agendada será em março de 2018. Você pode fazer parte da nossa vivência e imersão à cultura dos “txais’.

Noite de cura e bailado nas aldeias da Amazônia

Era 24 de agosto quando Txaná Tuin Hunikuin recém havia retornado à cidade de Jordão, a 418 km de Rio Branco, capital do Acre, no meio da Floresta Amazônica. Naquele dia, no entanto, uma nova viagem estava nos seus planos. Com um grupo de expedicionários vindo do Sul do Brasil, viajaria mais de três horas em um barco pelo rio Tarauacá.

O destino daquela noite: as aldeias Boa Vista e Chico Curumim.

Já anoitecia quando todos se juntaram aos demais índios locais e de outras tribos para formar uma roda de cerimônias programada há tempos por várias lideranças regionais. No centro do velho terreirão o líder religioso Inca Muru abria os trabalhos de pajelança.

De início, os índios reúnem-se, à luz de velas, e uma primeira rodada de nixipae, como é chamada o sagrado chá ayahuasca para o povo kaxinawá. Mais de três dezenas de índios das etnias hunikuin do Jordão, também conhecidos comp kachinawa, começam a cantoria, a bateção do maracá e dos demais instrumentos.

Ouvem-se canções na língua pano, que se intercalam com outras músicas aprendidas dos não índios. Assim que a música tomou conta do terreirão as índias levantaram-se e iniciaram o bailado, numa dança que duraria a noite inteira…


Índios e índias bailando, cantando e tocando ao longo da noite

Quarenta minutos após o início da sessão, os efeitos do nixipae começam.

É quando o Txana se levanta e fala aos visitantes: “nixipae é a ayahuasca, é composto um cipó sagrado e significa professor dos professores do povo nativo da Floresta. Serve para as medicinas, curando o espírito, a matéria e o pensamento das pessoas”.


Txaná Tuin Hunikuin

O ritual segue quando uma segunda dose é servida. A partir daí quem ainda não estava na força da corrente não teve como se controlar. Uma forte limpeza começa – física e espiritual.
A roda do rapé já havia passado também, trazendo mais miração e cura para todos.


Prática do rapé, é a medicina da Floresta em pleno uso da cura

Com mais uma sequência de hinos, foi a vez de Inka Muru, após uma pausa, servir o kawa kawa, erva moída num pó, que transforma-se numa pasta misturada com água, e forma a bebida que traz novos estados de iluminação. “Essa é a nossa medicina nativa.Significa olho do yuxibu, o espírito da floresta. Serve para o pensamento e o espírito. Para matéria se conectar com o yuxibu”, declara o líder religioso.


Pajé Inka Muru da Aldeia Boa Vista no Jordão

A pajelança segue, as índias dançam e a música rompe a madrugada. Quando chega o momento do Sananga, o colírio nativo da floresta.
Os mais velhos começam a pingar nos olhos.
Apenas um dos visitantes experimenta. Em poucos instantes, começa a sentir uma sensação em sua testa, como se estivesse sendo mexida energeticamente. Depois do forte arder, ele relata a sensação de leveza e suavidade na sua visão.

“Usamos o shane tsamati (sananga) para a caçada. Serve pra enxergar bem do ‘cego’, para picada dos insetos, e para curar dos maus espíritos”, diz Txana.

Em meio à roda, começam as aplicações do mulateiro, o banho de folhas que “dá” muitos anos de vida, segundo a crença. Todos passam por mais esta sessão de limpeza, quando os índios preparam matsi pei.
“Serve para esfriar as quenturas, para tumor, para dores de cabeça, para curar dores abdominais, para esfriar o coração e tirar o estresse”, Siã Hunikuin, pajé da aldeia Chico Curumim.

As horas se passam, a miração se acalma e o sol nasce.
É a hora de encerrar a viagem.
A única certeza que ficou aos não índios que ali passaram por aquela noite na aldeia foi a de que nunca seriam os mesmos. O ingresso no coração da floresta e na alma ancestral indígena marcaria para sempre a existência deles.

Haux haux….


Os pajés Inko Murú e Siã Hunikuin junto com o líder Txana Tuim

Em breve, estaremos formando uma expedição para estas duas Aldeias.

Rapé: sua utilização e indicações

O uso do rapé é ancestral e presente em diversos lugares e épocas da história. Durante a colonização do Brasil, os indígenas e pajés da floresta já faziam uso do rapé como medicina e de seu poder espiritual nos cerimoniais da tribo. Muitos europeus que vieram ao Brasil na época experimentaram o rapé.

Até hoje os pajés usam rapés antes de entrar na mata para se harmonizarem com os seres da floresta. Já os índios o utilizam como forma de ligação do seu espírito com o mundo espiritual. “Passar rapé” é o termo usado durante o ritual xamânico e a substância está sempre presente nas pajelança dos índios da região amazônica, em especial os que vivem no Acre.

Rapé é um pó fino, que ao ser inalado por meio de uma fumaça ou nuvem que se sopra, envolve o ambiente. Os índios acreditam que a aspiração desta fumaça representa absorver energia dos espíritos que acompanham o pajé, sua ancestralidade e os seres espirituais que habitam a floresta. Após aspirar ocorre uma dinâmica do índio com a energia espiritual presente.

A passagem do rapé pelo pajé em sua tribo significa que ele está enviando a sua boa energia, a energia de cura. E a fumaça que sai do o inalador do rapé, por meio de sopro do pó fino, promove uma “dança de energias”, segundo relato do cacique Busã da aldeia dos shanenawás do baixo rio Envira, Acre.

O rapé é feito de tabaco e outras ervas e cinzas de árvores. Uma vez misturado, moído é transformado em um pó fino e aromático. Ele é aspirado ou soprado pelas narinas. O tabaco xamânico não é industrializado, sendo um tabaco originado e colhido na floresta, de plantas extremamente poderosas, curativas, e que estão em seu estado original, com toda potência natural.

Receitas amazônicas apresentam diferentes ervas além do tabaco em seu composto como casca da copaíba, cumaru de cheiro (casca da cerejeira), canela-de-velho, sunum (pau-pereira), entre outras cinzas oriundas de cascas de árvores também medicinais.

Considerada uma planta poderosa, este fumo para inalar apresenta benefícios no combate à sinusite, enxaqueca. A qualidade da composição destes ingredientes no seu preparo é de suma importância para o hábito de se consumir rapé.

Alertamos para o fato de o rapé ser oferecido de forma disseminada nas redes sociais, com vendas online do produto em vários sites. É preciso ter conhecimento do preparado do produto, pois não é recomendável o uso do rapé fora do seu ambiente natural.


Fontes:

Rapé – Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Rapé

Mendes dos Santos, G. M; Soares, G.H. (2015) Rapé e Xamanisno entre grupos indígenas no Médio Purus, Amazônia. Disponível em http://periodicos.ufpa.br/index.php/amazonica/article/viewFile/2148/2440