Vamos andar por esta trilha juntos? Expedição na Região do Envira – Janeiro/2020

Olá como vai?

Haux haux

O povo da floresta está organizando um grupo para uma expedição em janeiro de 2020.  Convido você a participar desta vivência. Percorremos as terras dos Hunikuin’s do alto e médio Envira no Estado do Acre, próximo à fronteira com o Peru até as terras dos Shanenawas na divisa no Estado do Amazonas.  Será uma expedição e tanto!

A expedição está dividida em duas etapas e você pode escolher participar de uma, ou das duas. Na primeira etapa  inicia no dia 02/01 para o alto Envira e terá a duração de 17 dias, até 18/01. A segunda etapa começa no dia 17/01 na terra dos Shanenawas e terá a duração de 9 dias, até dia 25/01. Nosso encontro será no aeroporto de Rio Branco.  A 1ª etapa eu nunca vivenciei, será uma grande novidade.  

O mais importante desta vivência é a cultura, as tradições dos povos, e a nossa missão!

Povo Hunikuin do Alto Envira

Ajudar na execução do projeto das aldeias envolvidas em nossa visitação.  Eles pedem auxílio na construção de um hospital indígena, dirigido integralmente por eles, em especial pelos pajés. A nossa contribuição será revertida na construção de um módulo, o “ambulatório”, com iluminação por meio de um gerador solar para sua iluminação. Também doaremos instrumentos musicais para os jovens txanais(*) e missangas para fomento a cultura e o artesanato local.

Para ver mais detalhes sobre o itinerário e detalhes da viagem acesse o link a seguir:

http://povodafloresta.com.br/wp-content/uploads/2019/09/200103_Expedicao_Vivencia_Hunikuin_Jan2020.pdf

 

Povo Shanenawa

Auxiliar financeiramente no projeto de construção de uma nova unidade escolar e infraestrutura da aldeia.

Para saber mais detalhes sobre o itinerário e detalhes da viagem acesse o link a seguir:

http://povodafloresta.com.br/wp-content/uploads/2019/09/200117_Expedic%CC%A7a%CC%83o_Vivencia_Shanenawa_Jan2020.pdf

Caso tenha interesse em participar ou saber mais detalhes sobre a viagem, por favor, entrar em contato pelo meu whatsapp (11) 94768-9000

Gratidão pelo contato.

Shavá shavá

Haux haux

Pardal

Conheça o projeto: www.povodafloresta.com.br

 

Os papéis das mulheres nas aldeias indígenas do Rio Envira.

A Comissão de Mulheres Indígenas da Rio Envira – COMIRE é formada por representantes mulheres e de jovens de 39 aldeias na região de Feijó/Acre. São elas que incentivam  trabalho coletivo e a boa educação na aldeia e são escolhidas pela comunidade pelo seus dom e talento nas atividades que realiza.

 

Siriani Kawinawa é a atual líder da Comissão de Mulheres Indígenas da Região do Envira – COMIRE e explica que os objetivos da comissão são de participar de eventos e reuniões regionais, governamentais ou não, representando a coletividade feminina exigindo seus direitos e necessidade além do compartilhamento destas informações com a comunidade das mulheres caciques, artesãs, parteira e pajé. Siriani explica que a habilidade do artesanato é passada de geração por geração tornando as mulheres artesãs nas quatro etnias indígenas. A cacique mulher representa a aldeia em reuniões externas e entre aldeias e é escolhida em uma reunião da comunidade. Normalmente o cacique representa uma família com o posto ocupado de pai ou mãe para filho ou filha e o escolhido deve possuir a capacidade de diálogo. A parteira normalmente faz todos os partos da aldeia e esta habilidade é identificada pela mãe nas filhas. A formação de parteira não é certificada, contudo é muito importante ser valorizada e reconhecida pela sociedade a parteira indígena. Já a formação do pajé é feita com o acompanhamento do aprendiz das atividades do pajé. Atualmente jovens estão se formando pajé incorporando o conhecimento das plantas, dos chás, das dietas tendo a necessidade de cumprir uma série de etapas e dietas sendo a formação continua do aprendizado. A troca de conhecimento entre os pajés é uma atividade constante no mundo indígena.

 

 

O rapé, sua dieta e o autoconhecimento

Conheça o rapé: o ancestral pó amazônico e suas indicações

Relato de Pedro Benatti Alvim, do Povo da Floresta.

Entre os povos indígenas da Amazônia é costume fazer alterações na alimentação quando determinadas pessoas são iniciadas espiritualmente em determinados estudos. As chamadas dietas são restrições alimentares que variam de acordo com o propósito. Por exemplo, a dieta de um caçador que irá acampar durante vários dias na mata para trazer carne para a comunidade é diferente da dieta de um pajé que se aprofunda no estudo da ayahuasca ou do rapé.

Folhas de tabaco secando ao sol pra fazer rapé

Muitas pessoas ficam curiosas e visitam esses povos para ampliar o estudo da pajelança e curandeirismo amazônicos. Os shawãdawas, hunikuin, katukina, yawanawa e outros do Acre normalmente introduzem a dieta do rapé para não índios interessados no tema. Essa dieta é vista como um primeiro passo para se conhecer com mais respeito as medicinas da floresta.

Durante 21 dias, a pessoa iniciada elimina de sua rotina o sal, o açúcar, todos os tipos de carne e atividade sexual. Frutas e derivados de animais são permitidos, e é um preceito que pode variar entre cada etnia. A comida preparada para as pessoas que estão nessa dieta são preparadas especialmente para elas, e não podem ser divididas com outros que estão se alimentando normalmente para que o propósito da energia se preserve.

O rapé, medicina feita a partir de tabaco moído e cinza de árvores, deve ser auto-aplicado durante os dias. Não se restringem o número de aplicações, mas se sugere uma disciplina de pelo menos dois ou três sopros por dia: uma ao acordar, em jejum; uma ao anoitecer e um antes de dormir. A primeira e a última aplicação do dia são fundamentais nesse estudo. Por ser um estudo pessoal que irá familiarizar a energia do estudante com a medicina da floresta, a pessoa não pode receber sopro de outras pessoas durante a dieta.

A ideia de se eliminar certas atividades e alimentos durante o período é de purificar o corpo e limpar o canal espiritual. Esse jejum voluntário retira certos vícios alimentares comuns e coloca a pessoa em estado mais intenso de auto-observação. Assim ela terá mais clareza dos ensinamentos da floresta ao consagrar o rapé e outras medicinas.

Os pajés mais velhos também conhecem outras dietas para afastar doenças e conhecer outras medicinas. No entanto, são estudos mais profundos que devem ser passados pessoalmente àqueles que estão trilhando o caminho, preservando a tradição e os mistérios da floresta.

Sopro do rapé feito em ritual shanenawá. Imagem meramente ilustrativa

Vida e alimentação numa comunidade ribeirinha da Amazônia

Relato de Pedro Benatti Alvim, do Povo da Floresta.

Há tempos eu tinha o sonho de visitar o Acre e conhecer seus povos indígenas. Transformado por uma jornada espiritual interna na cidade, senti que precisava externalizar essa viagem, indo às raízes daquele conhecimento que tanto estudava. Em São Paulo, fui surpreendido por um convite de Ana e Anazildo (Nazinho) Siqueira Shawãdawa para visitar sua casa no Croa. Sinto que vivi os frutos do que gerações de índios, africanos, sertanejos e tantos povos ancestrais são capazes de oferecer de maneira tão única nos rios dessa terra brasileira. Conto aqui um pouco sobre a vida e alimentação de uma comunidade ribeirinha da Amazônia brasileira

O Croa é um igarapé ligado ao rio Juruá a mais ou menos 35 quilômetros da cidade de Cruzeiro do Sul. A comunidade ribeirinha que vive em suas ricas margens estabeleceu-se lá há cerca de 30 anos. Atraídos primeiramente pela extração de látex na região amazônica, hoje os ex-seringueiros, seus filhos, filhas, primos, netos etc. sustentam-se de forma criativa e variada dos recursos que a natureza oferece. Pesca, extração de frutíferas, carpintaria, artesanato e, sobretudo, o turismo comunitário são algumas das atividades que seus moradores empreendem ali mesmo, prezando e preservando a riqueza local. O compadrio e a camaradagem são cotidianos no rio Croa, que fecha em paz seus laços de aliança e se abre para receber pessoas de todo o mundo.

Como é a vida e a alimentação em um lugarejo na Amazônia brasileira

Cheguei em Cruzeiro do Sul às 23h30 do dia 29/12/2017 e logo no desembarque encontrei Nazinho e o taxista que ele chamou para nos levar até a ponte da BR-364 sobre o rio Crôa. No caminho passamos na casa da mãe de Ana dentro da cidade e seguimos pela estrada. Na ocasião não conheci Dona Vera, mas ao passar das semanas compreendi que ela tem uma localização estratégica fundamental na família. Por morar na cidade, seu acesso às redes de telefone e internet permite que seus filhos e genros tenham um lugar onde podem resolver contatos com calma, comerem e descansarem. Ela mantém uma venda ao lado de sua residência e tem muita disposição para ajudar na postagem de mercadorias e transações bancárias, apesar das dores que sente na perna, uma condição de saúde que carrega há anos.

Chegamos à ponte com minha bagagem mais ou menos 0:30 e paguei R$150 ao taxista. Ali descemos por uma breve passagem que levava ao pequeno cais onde se estacionam os barcos. Esse ponto também é estratégico por possuir uma pequena mercearia e a casa de Piôla, seu dono. Além de alguns alimentos e outros objetos à venda (isqueiro, velas, hélices de motor de barco etc.), a casa de Piôla também serve como garagem para as motocicletas dos moradores do Crôa. Infelizmente isso não garante segurança, pois mais de uma vez a moto de Nazinho foi encontrada ali sem gasolina ou com peças quebradas. De qualquer maneira, é uma camaradagem comum entre os moradores da região e ajuda muito em termos de transporte. Há outros moradores que embarcam suas motos para atravessar o rio sempre que a usam e isso envolve um custo maior.

A canôa de Ana e Nazinho, a Flor das Águas

Entramos na canoa de Ana e Nazinho, a Flor das Águas, navegamos sob a luz da lanterna e da lua por aproximadamente 15 minutos até chegarmos à residência do casal de barqueiros. Apenas durante o dia pude ter uma noção do quão preservado estava o igarapé: uma abundante mata adjacente e pouquíssima poluição, encontrando apenas alguns raros pacotes de salgadinho vazio ou latas de cerveja nos pontos mais frequentados.

Entre os animais que vi ao longo do rio, posso citar: pássaros (japó amarelo, japó vermelho, tucanos, bem-te-vi, galinha-d’água e outros), tartarugas, inúmeros peixes que ocasionalmente pulavam da agua para se alimentar, pequenas cobras, mucura (um tipo de gambá), famílias de macacos e teias gigantes de aranha.

Ao chegar na casa, fiquei muito feliz com sua simplicidade e com a boa recepção. Assim que subimos os três degraus de madeira na frente da casa, entramos na cozinha e tomamos um açaí da região. Forte e sem açúcar, o suco dessa fruta nativa é muito apreciada junto com o “vinho” de outras frutas similares, como o buriti, patuá, abacaba e cupuaçu. Desses, apenas o cupuaçu é normalmente servido com açúcar por seu gosto azedo.

Conversamos um pouco sobre os planos dos próximos dias, pois seria a véspera de Ano Novo, e das necessidades de gastos de transporte para fazermos a viagem. Iríamos passar a virada de ano na casa da filha do casal, Camila, em Rodrigues Alves, com seu marido, filha e outros parentes. Para tanto, deveríamos levar alguns alimentos para colaborar com a ceia, então fomos para a cidade no dia seguinte provisionar algumas coisas.

Alimentação

Os alimentos cotidianos da população ribeirinha se estendem em muitas medidas para os índios shawandawa, como é comum entre os povos indígenas do Acre. Destacam-se a farinha de mandioca, o arroz, o feijão carioca, o macarrão (presente quase todos os dias), ovos, todos os tipos de carne com predominância de peixes e aves, inclusive de caça, alho, cebola, pimenta-de-cheiro e alguns temperos da horta (cebolinha, manjericão).

Banana-prata, banana-da-terra e goiaba branca são abundantes por estarem plantados no terreno e nas vizinhanças, além de alguns tipos de limão e palmeiras de região. Grande parte dos dendês e buritis que caem dessas palmeiras são aproveitados pelos animais quando as pessoas não os colhem. Apesar da macaxeira (mandioca, aipim) também estar presente na forma de raiz, era muito mais comum encontrarmos sua farinha pela facilidade de armazenamento. Um detalhe curioso é que o povo de Cruzeiro do Sul se orgulha muito de sua farinha bem seca, grossa e saborosa. A Ana costumava dizer: “essa farinha é muito melhor do que a de Rio Branco. Tem lugar no Brasil que o pessoal até pede pra gente mandar porque não encontra! E na hora de tomar um caldo faz uma falta!”

Em comunidades como o Crôa, próximas aos centros urbanos, é comum trazer legumes e verduras mais difíceis de se encontrar na região, como alface, tomate, pepino, cenoura e beterraba. Pelo menos quatro ou cinco dias da semana podíamos contar com uma bela salada em alguma das refeições. De fato, não há o costume local de se ter hortas fartas em legumes principalmente por conta das cheias sazonais que destroem as plantas domésticas.

Todo dia há três refeições principais e, ocasionalmente, uma merenda à tarde. Durante o feitio de ayahuasca, há o trabalho de cozinhar para um contingente de 15-20 pessoas de maneira regular. Para tanto, a cozinha ficava sob a tutela das mulheres enquanto os homens se ocupavam com a ayahuasca. Normalmente todos acordavam naturalmente com o nascer do sol entre 6h e 7h, e até as 8h havia pelo menos um café coado e um chá nas garrafas térmicas. Até as 9h era servido o café da manhã, que variava entre pãos caseiros, banana da terra cozida, tapioca, manteiga, mingau de aveia com leite, vitaminas e, ocasionalmente, ovos fritos. Pela abundância de árvores frutíferas no terreno, especialmente goiabeiras, bananeiras e ingazeiras, todos eram livres para “buscar” o próprio alimento a qualquer momento.

A carne é muito apreciada na região, especialmente se os animais são caçados ou criados na região. Galinhas, patos e porcos são comuns nos quintais das casas e se alimentam tanto de rações, quanto de grãos, frutas e restos de alimentos. As fazendas de gado bovino não estão próximas da comunidade do Crôa, mas seu alimento também é apreciado. Nessa viagem, o boi esteve muito presente enquanto animal de trabalho para trazer a lenha cortada do terreno. A carne de caça tem um lugar especial devido à tradição indígena e muitos já viveram dessa atividade ou possuem algum parente próximo que o faça. Carne de veado, queixada (porco do mato) e o pássaro nambu são as mais comuns, mas a variedade de bichos nessa categoria é grande, indo da cotia ao jacaré.

A pesca também é costume entre os ribeirinhos e indígenas. Sempre que navegávamos pelo rio, era possível ver redes de pesca estendidas em seu curso – as mangas. Esse método consiste em deixar uma rede de 20 a 50 metros atravessando o rio durante algumas horas (às vezes da noite pro dia ou do dia pra noite). Dependendo da estação e da sorte, a espera pode render bons quilogramas de peixe. Outro método é a “tarrafa”, onde a rede é jogada na água e afunda, capturando os peixes no caminho. A pesca com vara também compõe o cenário, geralmente feito em canoas menores a remo para evitar que o motor afaste os animais aquáticos. A variedade de peixes é tanta que não sei informar quantos tipos moram no rio e vão às mesas. Os açudes (criadouros de peixes) são mais comuns próximos à estrada, onde o acesso aos rios e igarapés é limitado.

 

Turismo de base comunitária cocriado com índios

O projeto Povo da Floresta realiza um trabalho de cocriação com as comunidades locais do Acre para fortalecer uma rede de pessoas e a consciência de atuação que deve perpassar e se traduzir em benefícios do próprio espaço físico e dos índios. Juntos com as comunidades indígenas com as quais trabalhamos na Amazônia brasileira temos uma oportunidade para aprender a história, modos de vida e características de culturas únicas com seu ambiente. Além de conhecer o próprio ambiente e sua harmonia natural, integrada a esses povos de maneira ancestral. Esse modelo não só derruba as fronteiras que a sociedade ocidental está acostumada a criar entre natureza e cultura: ele recria e fortalece seu elo.

O turismo de base comunitária que realizamos, em si, envolve dois conjuntos de atores principais: a gente que nasceu e viveu no local por gerações e, claro, os “estrangeiros”, nacionais e internacionais, convidados a adentrar esse mundo de relações. No meio desses dois conjuntos estão os mediadores formado por uma mescla de cada lado, indígenas e não-indígenas. São agentes dispostos a trabalhar na integração de diferentes pontos de vista de mundo, traduzindo e resolvendo desafios de tornarem confortáveis a experiência do contato. Esse esforço envolvido permite que preconceitos e vícios de interação sejam superados. A depredação do patrimônio natural e cultural (a floresta e seu povo), o enquadramento em papéis pré-estabelecidos e estereótipos e a exploração das etnias nativas, sem levar em conta seus desafios e necessidades materiais concretos, podem ser evitados por meio do estudo prévio e trabalho coletivo durante esse tipo de empreendimento.

Consequentemente, por meio da nossa atuação dentro da lógica do turismo de base comunitária temos:

  • Incentivos à formação de associações e cooperativas ligadas com as particularidades locais;
  • Prosperidade às comunidades envolvidas, tanto em termos materiais quanto simbólicos;
  • Adequação e criação de estruturas para abrigar e conduzir, sem prejuízos, as pessoas pelo ambiente e na convivência com as culturas;
  • Enriquecimento educacional para todos os envolvidos na experiência, com o surgimento de ideias que podem ser aperfeiçoadas com o tempo;
  • Maiores oportunidades de relações honestas e amigáveis entre cada conjunto de agentes;
  • Engrandecer a união e harmonia espiritual entre a natureza e o ser humano, tão importante nos povos indígenas. A espiritualidade da floresta é mundialmente conhecida por curar e fortalecer as pessoas que abrem seus corações a experiência da entrega, independentemente de suas religiões originais.Da mesma forma que eu tivemos a honra de vivenciar e aprender um pouco da cultura, da culinária, da medicina, dos trabalhos espirituais, trabalhos de cura, e outros costumes, propomos como o nosso projeto que outras pessoas vivenciem isso também.

Venha vivenciar esta cultura e realizar trabalhos coletivos e colaborativos para o fortalecimento e sustentabilidade de um povo que vivem em um país com nome de uma árvore, Brasil!